Muito antes de surgirem os Piratas da Pedro II, Santo Bando, Demônios do Santo André, Virgens do Formigueiro Quente, Urubus do Arrudas ou mais recentemente o Cacete de Agulha, Tetê, a Santa, Mamá na Vaca, Podia ser Pior ou Unidas dos Grandes Lábios, um grupo de operários pintava o rosto e desfilava batendo latas e tambores em cima das carroças pelas ruas de Belo Horizonte. Era fim do século 19 e nasciam assim os primeiros blocos caricatos da capital. Durante muito tempo, essas agremiações carnavalescas foram perdendo seu espaço na folia belo-horizontina, apesar de nunca terem deixado de existir.
Há pelo menos quatro anos, começaram também a pipocar pequenos blocos com 300, 400 pessoas em vários bairros da cidade, que não só fazem a alegria do povo nos dias que antecedem o carnaval, como alguns também desfilam durante os quatro dias da festa de Momo. “Na verdade, eles nunca deixaram de existir, principalmente na periferia de BH, mas estavam meio esquecidos. Eles perderam a força durante um tempo, mas estão voltando com tudo e isso é extremamente positivo porque, ao contrário do que muita gente pensa, Belo Horizonte tem sim um carnaval tradicional”, ressalta Guto Borges, um dos criadores do bloco Mamá na Vaca, que desfila pelas ruas do Santo Antônio.
Guto, aliás, integra outras agremiações, como o Bloco do Peixoto, Tico Tico Serra Copo e Bloco da Praia da Estação. “Isso é muito comum, ou seja, um folião fazer parte de várias agremiações, porque é um grande grupo de amigos que acabou promovendo esse resgate do carnaval da cidade. E o mais legal é que a cada ano surgem novos blocos por aí”, comemora a produtora Renata Almeida, que faz parte do Cacete de Agulha. O nome é uma referência ao famoso vídeo de uma entrevista de doação de sangue que estourou no YouTube.
Um dos criadores do Cacete, Eduardo Garcia, o Garbo, acredita que esse movimento de tomar as ruas vem ocorrendo em vários cantos do mundo, que o belo-horizontino é um povo que gosta de eventos em locais públicos e não seria diferente com o carnaval. “As pessoas querem participar da cidade, senti-la. E por que também não na festa mais famosa do país? Tem acontecido uma coisa que era impensável há uns anos. Muitos estão optando por ficar em BH em vez de viajar para aproveitar os quatro dias de folia, já que programação não falta”, revela.
PropagaçãoAlém do boca a boca, a internet tem sido um importante instrumento de divulgação dos blocos, especialmente, as redes sociais. Porém, alguns organizadores, às vezes, nem preferem fazer tanto alarde de suas agremiações, justamente para não perder a essência. “A gente não quer multidão. É um carnaval mais família, que reúne muita criança, gente idosa; aquela coisa de bairro mesmo, como se fosse antigamente. Não deixa de ser uma reinauguração do carnaval de BH. A gente compartilha o espaço público, veste a fantasia e pula com muita alegria. No fundo, todo mundo gosta desse carnaval de rua tradicional”, resume Milene Migliano, do Bloco da Tetê, a Santa, que desfila há três anos no Bairro Santa Tereza.
Apesar do crescimento do carnaval de rua na capital mineira, os foliões daqui sabem que a cidade ainda está longe do movimento registrado no Rio de Janeiro, onde há blocos que chegam a reunir até 1 milhão de pessoas e estão se tornando cada vez mais atrativos. Garbo, do Cacete de Agulha, diz que acompanhou todo o desenvolvimento da folia carioca nos últimos anos, mas não acredita que os mineiros querem chegar ao patamar que o Rio alcançou. “BH não vai chegar a esse ponto, porque não é isso que pretendemos. O Rio de Janeiro não nos serve de inspiração nesse sentido. A gente quer um carnaval diferenciado, alegre, divertido, com a turma de amigos, mas claro, também com os turistas. Sobretudo, queremos uma folia que trabalhe a questão da cultura, valorize o que temos aqui. A capital de Minas merece um carnaval bonito e a gente está caminhando pra isso”, ressalta.
TradicionaisHá pelo menos 30 blocos surgidos recentemente na capital, mas bem antes desse boom algumas agremiações já faziam a festa por aqui. Um dos mais antigos é Os Aflitos do Anchieta, que há 44 anos, além do desfile, promove trabalho social em hospitais e penitenciárias. Apesar de não promoverem mais o carnaval de rua, e somente participarem do cortejo oficial dos Blocos Caricatos no Boulevard Arrudas, a presidente Sônia Maria Pereira vê com bons olhos o aparecimento dos mais novos. “A cidade já teve tanto carnaval animado, por isso acho importante esse resgate. Era uma época gostosa e espero que isso realmente volte para ficar”, declara.
Outro bloco que já está virando uma referência em BH é o Santo Bando, que desde 2004 anima as ruas do Bairro Santo Antônio, no sábado que antecede a festa pagã. Este ano, depois de uma negociação com o Ministério Público, eles mudaram a data. “O bloco cresceu muito e, como ele sai no mesmo dia da Banda Mole, a gente acabou decidindo que o desfile vai ser realizado dois fins de semana antes do carnaval, em 4 de fevereiro. Justamente para dar mais segurança, haverá um efetivo maior da Polícia Militar e da BHtrans para evitar possíveis problemas”, esclarece o vice-presidente do bloco, Nilo Marciano de Oliveira. Para o folião, a proliferação dos blocos belo-horizontinos comprova que a população gosta de carnaval, especialmente, o tradicional, e ressalta a participação de gente dos mais variados tipos. “É uma festa democrática mesmo, que reúne pessoas de todas as classes, idades, profissões. Só o carnaval consegue isso”, ressalta.
Marchinha e liberdade“As pessoas querem viver e sentir mais livremente o espaço público e urbano. A ideia da marchinha é exatamente essa. As pessoas saírem em marcha pela cidade, andando e cantando”, defende Guto Borges. Se a população quer aproveitar a cidade de uma maneira diferente, nem por isso encontra apoio para manifestações espontâneas por parte da prefeitura. “Estão privatizando o espaço público”, critica o criador do bloco Mamá na Vaca.